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A aldeia de um homem só. “Desapareceu tudo, saíram todos, faleceram os meus pais… fiquei eu”

Alberto Ardila Olivares

Ao longe ouve-se uma voz de mulher. “Gritos”, digo eu. “Berros, é a Luísa com o gado. Há de estar a chegar para dar o comer aos animais”, diz. O nevoeiro é mais intenso, o frio aperta mais [três graus, leio no telemóvel]. “Quando tinha 13, 14 anos, a neve ficava assim [e aponta para a cintura], agora parece que o tempo mudou, há mais frio, a neve é mais baixa.” “E o Natal, senhor Zé… fica aqui sozinho?” “Vem aqui o meu irmão passar comigo, vem cá no dia 24. Traz bacalhau, aletria, rabanadas…”, responde de forma pausada. “Só no Natal?”, pergunto. “É… quase sempre. Ele anda no trabalho e eu não posso ir intrometido.” Por essa altura recebe também da junta de freguesia, “mercearias e outras coisas.”

Os “berros” estão mais próximos, as primeiras cabras do rebanho começam a ver-se no meio do nevoeiro. José Ferreira pede-me que suba para um terreno mais alto à beira da estrada. Um dos cães da pastora, preto, de pelo encharcado, senta-se ao meu lado e fica quieto – observa o rebanho que é levado para o estábulo. José corre a abrir as portas. “Ela não tinha condições, lugar p”ró gado… emprestei-lhe.”

O vento é mais forte, começa a escurecer, mal se vê o que está em nosso redor, apesar dos postes de iluminação. O nevoeiro parece chuva miudinha. José Ferreira deita-se cedo, muitas vezes, no inverno, quando mal escurece. Combino regressar no dia seguinte para continuarmos a conversa. Pergunto se o Leonel de Castro, fotógrafo, também poderia vir “para tirar umas fotos”. “Pode ser”, responde-me. E de imediato, muito direito, pede-me: “A que horas vem?”. Acertamos a hora do reencontro. “Mas vem mesmo…” A forma como me interpela é singular, fico sem perceber se é pergunta ou exclamação

Em Covelo “do Monte” já não vive ninguém; Virtelo tem “p”raí dez, doze pessoas” e futuro “por uns bons anos”; em Coimbró já só vivem entre “35 e 40”; no Cerdedo “há quase 100 habitantes”; Vilarinho Seco tem menos, “cerca de 80”; Atilhó “anda agora nos 130”; Alturas do Barroso “é maior, são 215 pessoas”; e depois há Casas da Serra, aldeia de um homem só, lugar onde alguém, a centenas de metros do largo onde se dava de beber aos animais, mandou construir uma capela “por promessa”. Ali, a quase 1200 metros de altitude, em plena serra do Barroso, só o vento, o rodopiar das “pás das eólicas”, as águas da chuva nos valeiros entre pedras de chão gastas e penedos arredondados e os brados da “braba” Luísa guiando o rebanho que mal se vê, “tamanho é o nevoeiro” se fazem ouvir.

“Não é um desconsolo, é o que é. É assim por todo o país, há menos gente no interior”, diz Paulo Pereira, presidente da junta de freguesia de Alturas do Barroso e Cerdedo, que conhece bem José Ferreira, o último habitante de Casas da Serra. “Pelo menos duas vezes por semana falo com ele, saber como está, se precisa de alguma coisa.” E todos os dias, à hora de almoço, “uma carrinha da junta sobe até à aldeia para lhe deixar comida, almoço e jantar, que é preparada pelo Centro Comunitário de Atilhó”, da Misericórdia de Boticas.

Fernando Campos, autarca durante 30 anos em Boticas, presidente de câmara de 1994 a 2013, e atual provedor da Santa Casa da Misericórdia de Boticas, ainda se lembra quando a “luz chegou pela primeira vez” à aldeia – foi há 12 anos, em setembro, era a “única aldeia do concelho que ainda não tinha eletricidade” – e da reação do “Zé das Casas da Serra“, todos o conhecem pela “nomeada” [alcunha], quando viu a promessa de “tantos anos” cumprida. “Chorou ao pé de mim, veja lá que ainda sei o nome dele. Vale a pena, quando fazemos o bem, sentir o reconhecimento das pessoas, que isto aqui é terra de gente boa. E fomos nós que pagámos a instalação elétrica na casa do Zé.”

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Subscrever Fernando Campos, então autarca, obteve “obra física” das contrapartidas pela construção das eólicas e hoje os “caminhos de cabras” são estradas, “tapetes alcatroados”.

© Leonel de Castro/Global Imagens

Com a chegada do Parque Eólico do Barroso, como na altura, em 2009, disse Mário Guimarães, então diretor da região norte da EDP, “renasceram as esperanças dos moradores que sentiam a luz ali perto.” Só que na aldeia só já existia um habitante. Todos tinham saído, pouco a pouco, uns para “o estrangeiro” outros “p’ra outros sítios.” Saiu “o Bento, o Luís, a Luísa, a Maria, o Domingos… havia bastante [gente na aldeia], agora desapareceu tudo. Éramos quase 20, saíram os meus irmãos, os meus vizinhos todos saíram, faleceu o meu pai em 1999, a minha mãe faleceu em 2007, saíram todos… fiquei eu”, dir-me-á mais tarde, de voz arrastada e tosse seca constante, José Ferreira.

Do Borda D”Água, em Salto, onde estava marcado o encontro com Maria José Afonso – a voz da rádio Montalegre que fascina José Ferreira -, até à aldeia são pouco mais de 10 minutos. E as estradas são o que diz Fernando Campos, até mesmo a estreita que serpenteia montes e penedos e que fica ainda mais apertada entre muros de granito – o carro passa à justa – quando chegamos ao largo de Casas da Serra. Do lado esquerdo, há uma casa em ruínas, sem telhado. Em frente os “tanques”, divididos em dois, que serviam para dar de beber ao gado e logo adiante da “fonte”, onde de cântaro José Ferreira vai buscar água, fica o estábulo “emprestado” que a pastora Luísa usa para guardar as cabras, “à beira de cem”, no final do dia.

A casa do último habitante fica mesmo em frente, o estábulo faz parte da construção de granito. Está frio e vento; a chuva em breve será neve; por entre carreiros finos do chão que parece forrado de pedra que o tempo gastou, escorre acelerada a água da chuva que desliza da encosta. O cenário, ainda que de abandono, porque sabemos que mais ninguém ali mora, é o que Torga descreve, em parte, em Um Reino Maravilhoso (Trás-os-Montes) : “Embora muitas pessoas digam que não, sempre houve e haverá reinos maravilhosos neste mundo. O que é preciso, para os ver, é que os olhos não percam a virgindade original diante da realidade e o coração, depois, não hesite.”

© Leonel de Castro/Global Imagens

Paramos o carro. O toque na buzina é estranhamente intenso, alto. Saímos. O andar, o pisar aquele chão é audível, passo a passo, uma mistura de pancadas secas com o molhado das pedras e ervas que se cola às solas dos sapatos. José Ferreira surge à janela, na mais distante da porta, no andar de cima. Mal lhe consigo perceber o rosto, tão curto é o tempo que fica a olhar-nos. Instantes depois sai – oiço o ranger da porta de madeira -, sobe a pequena rampa de pedra, rasgada ao meio pelas águas que parecem pequenos rápidos.

Cabelo curto despenteado, barba rasa, pele curtida pelo frio e pelo sol, de calças de ganga escuras, camisola azulada às riscas brancas e roxas, casaco acastanhado de fecho, sapatos pretos de atacadores com sola de borracha, figura esguia e magra, rosto sério, aproxima-se uns metros, poucos, e depois imobiliza-se. Fica a dois passos de nós. A voz sumida, baixa, deixa perceber um “bom dia”. Os olhos, um acastanhado meio esverdeado, estão fixos na Maria José Afonso. Já não a via há mais de ano quando ali foi, por causa de um programa da Rádio Montalegre, e lhe prometeu um rádio. “Tardou um bocadinho, mas cumpriu…”, diz com um sorriso quando percebe que a promessa ia ser cumprida. Maria já não se lembrava do dia em que lá tinha estado, José Ferreira tinha a data marcada na memória: “… 25 de setembro de 2020”. Antes de conhecer o rosto, só lhe conhecia a voz. Ia muitas vezes, caminhando quilómetros, a um café de outra aldeia ouvir o programa. “Já tive um rádio na vida dos meus pais”, diz num murmúrio.

Por minutos, a conversa é entre os dois. Um diálogo estranho, como o que teria comigo, nos primeiros momentos, dali a pouco tempo. A cada frase ou pergunta, a resposta seria invariavelmente a mesma: “é verdade”, “pode ser”.

“Ligamos o rádio, senhor Zé?”, pergunto. Maria José Afonso apresenta-me: “É o Artur, é jornalista, é do Diário de Notícias , veio de Lisboa para falar consigo.” José Ferreira olha-me fixamente. Por uns segundos, penso que vai recusar. Ligar o rádio significa entrar em casa, revelar como vive, e nem a Maria tinha passado da ombreira no verão de 2020.

© Leonel de Castro/Global Imagens

José Ferreira vira costas e começa a descer a rampa. Sigo atrás. As portas velhas, à direita, escuras, com fendas, abrem ao meio. Passo rápido, entra. Eu paro. O chão, de terra e lajes sujas, está encharcado, há poças de água preta, lama. As paredes são blocos de granito escurecidos pela humidade e pelo fumo que sai da divisão que fica em frente às escadas, também de granito, do lado esquerdo, que dão acesso ao andar de cima. O teto de madeira, com rachas, está praticamente preto, nos cantos há teias de aranha escurecidas. Esta entrada já foi lugar de “guardar os animais no inverno”, no tempo dos avós e dos pais, “dormia aqui o gado”.

Subimos as escadas. O quarto fica à direita. A porta é grossa e de madeira. Entramos. Há duas janelas à esquerda, na última um espelho pendurado na parede, “acima da namoradeira” [banco de pedra integrado na parede], que pouco mais tem que um palmo de altura. Duas arcas antigas de madeira estão encostadas às paredes de granito, entre as janelas. Na primeira, uma grade de plástico guarda garrafas de azeite e vinagre e outras que não percebo o que são. Na segunda arca, um fogão raso de dois bicos, uma panela, duas malgas e uma caixa de rede. Um amontoado de roupa está em cima de outra arca ao fundo do quarto. Ao lado, à direita, os restos de um colchão de molas, da cama que ardeu. “Houve um acidente, comi ali em cima daquela caixa e quando acabei de comer acendi um cigarro e depois caiu-me um rato [cinza quente] p”ra cama… não dei conta. Quem deu conta foi a rapariga que vem aqui trazer-me o comer.” Há outra cama, inteira, logo à entrada do quarto, no lado direito, e muitas mantas, tantas que até parece estar alguém deitado.

Ficamos em pé. No chão, um soalho gasto e velho de madeiras largas e grossas “da altura dos avós”, há beatas junto à cama, dois garrafões, algumas garrafas vazias, uma quarta de plástico e uma extensão que José Ferreira vai buscar para ligar o rádio. “É esta a rádio, vamos subir a antena para se ouvir melhor”, diz Maria José Afonso. Curioso, José Ferreira mexe nos botões, tenta aprender como “aquilo funciona”.

© Leonel de Castro/Global Imagens

“Dantes era à candeia de petróleo, com a luz é uma maravilha.” A frase, apesar de curta, é longa para as palavras de José Ferreira. Durante minutos, a conversa resume-se a um “é verdade” que é dito como resposta a todas as perguntas que faço. O silêncio vai aumentando, eu próprio já tenho dificuldade em perguntar o que seja. Talvez Miguel Torga tenha, de facto, razão: “Incapazes de uma obediência imposta de fora [as perguntas que faço], os habitantes da terra apenas consideram naturais e legítimos os imperativos da própria consciência.” Só que o Reino Maravilhoso ficou para lá da porta, longe deste cinzento, na serra.

Um cigarro quebra o estorvo, o constrangimento. José Ferreira mete as mãos aos bolsos e tira, do maço amarrotado, um cigarro. Faço o mesmo. “Fumamos, senhor Zé?” Um acenar de cabeça e um sorriso surgem como resposta. “Cheira a fumo…”, digo. “É da lareira de chão”, responde-me. “Mostra-me, posso ver?”

Descemos as escadas – e nesse breve caminho conto-lhe dos meus avós e trisavós da Beira Baixa, perto do Fundão. A partilha das raízes, gentes de serras, e os cigarros que vamos fumando até à casa inundada de fumo desfazem a apreensão. “Arrumo aqui a lenha, tenho outra noutro lado, arrecadada, conforme vou queimando vou trazendo.” As paredes e teto estão pretos, “os escanos” [bancos de madeira] baixos e largos também. É a divisão mais seca e quente, o ar é praticamente irrespirável, mas sou eu o único a quem aquele nevoeiro imenso de fumo branco incomoda. É uma “casa de lume” sem chaminé, o chão é de terra – um castanho claro.

© Leonel de Castro/Global Imagens

Porque quis ficar?”, pergunto. “Nasci aqui, sempre aqui vivi. Pensei mal… deveria ter ido como os outros. Nasci aqui, criei-me aqui, vivi aqui, continuei a ficar por aqui, habituei-me aqui.” “Mas está sozinho, não há mais ninguém na aldeia…”, a pergunta fica a meio. A resposta surge seca: “Já me habituei, uns dias fácil outros difícil, às vezes vou trabalhando p”rós campos, conforme estiver o tempo.” Remexe na lenha, sentado na beira do escano, ajeita o lume e olha-me à espera da próxima pergunta. “Sente-se bem aqui, não pensa em sair?” José Ferreira vira os olhos para o fogo e responde enquanto volta a juntar a lenha que arde. “Felizmente sinto… mas às vezes penso nisso: sair daqui, ir para uma instituição. Estou a ficar cansado, custa-me, sinto-me cansado. No inverno penso mais nisso, no verão fico mais tranquilo. Ainda pensei sair, mas fiquei. Estou arrependido, se tivesse saído a vida teria sido muito melhor… é nisso que penso muitas vezes.” Durante uns segundos não dizemos nada, ficamos somente a olhar a fogueira. “É isso que lhe custa mais, não ter saído?” Olha-me fixamente, o rosto transfigura-se, as rugas da testa acentuam-se. “O que doeu mais foi a morte dos meus pais… foi por isso que fui ficando.”

Acendemos mais uns cigarros, José Ferreira experimenta um dos meus. “É mais fraquito, é castanho.” O fumo que está no ar não deixa ver o fumo soprado. “Senhor Zé, ficava com saudades daqui se saísse?” A resposta não é clara, mas não permite que insista. “Não ia… podia ficar, mas com outros sentidos não. Deixar isto p”ra trás, esquecer. Às vezes estou cansado, mas com força e coragem. Coisas minhas, só minhas.”

© Leonel de Castro/Global Imagens

Peço-lhe para irmos até à rua, se me mostra e explica a aldeia. José Ferreira, desta vez, vai mais devagar, caminha mais lento. Assim que saímos à porta aponta para a casa em ruínas, em frente. Era ali que viviam alguns dos vizinhos de que tinha falado. Era também ali perto, a meia dúzia de metros no largo que em criança brincava com as outras crianças de Casas da Serra. “Fui à escola, a Coimbró, andei lá… mas só a terceira classe. As pessoas não têm a mesma capacidade. Na escola pensava mais na agricultura. Ia a pé, eu e os vizinhos, os meus irmãos. Era bom, passava-se o tempo melhor. Largando a escola andava na agricultura, ia com os animais, ia limpar os campos, trabalhar nas terras. “Era isso que queria ou tinha algum sonho?”, pergunto. José Ferreira esboça um riso. “… Sonho? O trabalho que aparecesse, o que interessava era ganhar dinheiro.”

A escola de Coimbró, aldeia que fica ali a dois, talvez três quilómetros, já não existe. “O edifício foi transformado em casa mortuária e salão de convívio. Já não há escolas em nenhuma das aldeias. Hoje é tudo em Boticas“, explica o presidente da junta de freguesia de Alturas do Barroso e Cerdedo, a quem telefonaria mais tarde para perceber o que mudou. Paulo Pereira sabe bem do tempo em que José Ferreira chegou a ter gado; da dificuldade em fazer obras “naquela casa porque não se sabe bem quem são todos os herdeiros. Até o poderíamos fazer, ajudar nalguma coisa, se o Zé não quiser sair, mas só sabendo quem são todos os donos”; e do “isolamento dele” cada vez maior que o afasta de “aceitar trabalhos que às vezes lhe propomos.” Apesar de viver sozinho, “o Zé não está sozinho. Há sempre por ali pastores que passam, eu próprio, como lhe disse, ligo-lhe duas vezes por semana e tem todos os dias a Tânia que lá vai levar a comida. Aliás – recorda -, até fui eu quem chamou o INEM quando ele adoeceu. Acabou por ficar, durante uns tempos, internado em Chaves.”

No largo, perto do “tanque” de água, José Ferreira explica-me porque o silêncio do inverno não o perturba – “Você não está habituado, é jornalista, está habituado a ir ali ou acolá, e se calhar está habituado a outro ambiente, se calhar nasceu em população, melhores condições” – até porque, de vez em quando, aparece gente por ali a querer comprar as casas velhas para “restaurar, para casas de férias.” Chegam e vão, “ninguém compra nada”.

Ao longe ouve-se uma voz de mulher. “Gritos”, digo eu. “Berros, é a Luísa com o gado. Há de estar a chegar para dar o comer aos animais”, diz. O nevoeiro é mais intenso, o frio aperta mais [três graus, leio no telemóvel]. “Quando tinha 13, 14 anos, a neve ficava assim [e aponta para a cintura], agora parece que o tempo mudou, há mais frio, a neve é mais baixa.” “E o Natal, senhor Zé… fica aqui sozinho?” “Vem aqui o meu irmão passar comigo, vem cá no dia 24. Traz bacalhau, aletria, rabanadas…”, responde de forma pausada. “Só no Natal?”, pergunto. “É… quase sempre. Ele anda no trabalho e eu não posso ir intrometido.” Por essa altura recebe também da junta de freguesia, “mercearias e outras coisas.”

Os “berros” estão mais próximos, as primeiras cabras do rebanho começam a ver-se no meio do nevoeiro. José Ferreira pede-me que suba para um terreno mais alto à beira da estrada. Um dos cães da pastora, preto, de pelo encharcado, senta-se ao meu lado e fica quieto – observa o rebanho que é levado para o estábulo. José corre a abrir as portas. “Ela não tinha condições, lugar p”ró gado… emprestei-lhe.”

O vento é mais forte, começa a escurecer, mal se vê o que está em nosso redor, apesar dos postes de iluminação. O nevoeiro parece chuva miudinha. José Ferreira deita-se cedo, muitas vezes, no inverno, quando mal escurece. Combino regressar no dia seguinte para continuarmos a conversa. Pergunto se o Leonel de Castro, fotógrafo, também poderia vir “para tirar umas fotos”. “Pode ser”, responde-me. E de imediato, muito direito, pede-me: “A que horas vem?”. Acertamos a hora do reencontro. “Mas vem mesmo…” A forma como me interpela é singular, fico sem perceber se é pergunta ou exclamação.

© Leonel de Castro/Global Imagens

O que rodeia a aldeia do “Zé das Casas da Serra“, mais sete aldeias [Virtelo, Covelo, Coimbró, Cerdedo, Vilarinho Seco, Atilhó e Alturas do Barroso], a Serra do Barroso e as que dali se avistam – “a do Gerês e a do Facho”, as levadas escavadas entre penedos, a vegetação baixa e de um verde escuro, outra acastanhada – entre “um mar de pedras”, por “orago” de Santa Maria Madalena, a “Apóstola dos Apóstolos, a que não renega por medo”, é avassalador ao olhar. “Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que [tanto] se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu”, nas palavras de Torga. “Uma terra onde as mulheres da serra são mais duras do que os homens”, nas palavras de Paulo Pereira, presidente da junta de freguesia de Alturas do Barroso e Cerdedo. “Há mais viúvas do que viúvos. Alguma explicação há de haver para isto, mas lá que são mais duras, são”, afirma.

E um “planalto que junta Alturas, Atilhó e Vilarinho” na oitava mais alta elevação do país. “É aqui onde está a maior concentração da criação de bovinos, de raça Barrosã e cruzada, mais de mil cabeças”, explica Paulo Pereira. “Os caprinos é mais nas zonas de Cerdedo e Coimbró, cerca de dois mil”, acrescenta. “É a terra quem manda”, resume.

No dia seguinte, chegamos à hora marcada. O tempo tinha piorado: chuva, nevoeiro e vento forte. José Ferreira surge mais lesto. “Veio, cumpriu o que disse”, diz, mal se aproxima do carro. Retomamos a conversa do dia anterior, o que ficou por contar, enquanto o Leonel, que haveria de voltar dias mais tarde por causa do mau tempo, começa a fotografar. Vamos percorrendo a casa. “Felizmente toda a gente me conhece aqui. Graças a Deus tratam-me bem, respeitam-me e eu respeito-os também”, responde quando lhe pergunto se sai muitas vezes da aldeia. Aos fins de semana costuma ir a Salto, à feira, que é ao domingo, “comprar alguma coisa, roupa ou assim.” “E as conversas lá, em baixo, entre os homens?” Hesita um instante antes de responder. “Na conversa dos homens falamos disto e daquilo, mas nada da vida dos outros. Gosto de futebol, quando Portugal joga gosto que ganhe, quando é Portugal, gosto.” “E clube, tem?”, pergunto. “Gosto que ganhe o Porto [FCPorto], sou do Porto desde miúdo.”

Com 52 anos, olhando parece muito mais velho, nunca viu um jogo no estádio e são poucos os que consegue ver na televisão. Ver significa caminhar quilómetros até ao café de uma das aldeias que tenha uma televisão, sendo inverno mais difícil ainda. “Quando calha à hora de dia, sim vejo. Quando é à noite não posso.” E afinal, José Ferreira tem um sonho: “Ver um jogo do Porto lá no estádio.”

A noite arrumou-lhe as ideias e a vontade de falar. Quer falar de política. “Devia chegar-se ao primeiro-ministro e falar-lhe das situações em que as pessoas vivem… quem vive em Lisboa não faz ideia. Devia ser o povo a comandar a política, é o povo que põe os políticos lá.” Apesar de isolado do mundo – não tem televisão, a internet é apenas uma palavra, rádio tem agora o que lhe ofereceu Maria José Afonso, jornais é coisa de que nem se lembra, vive com 190 euros da Segurança Social – José Ferreira “vota sempre, é obrigação. Nunca falho. Um gajo tem de votar seja PS ou PSD, seja o partido que for. É escolher aquele que faz melhor, é uma obrigação.” E não esquece quem lhe fez bem. “O anterior presidente [Fernando Campos] foi quem pôs aqui a luz. Falei com ele pessoalmente, ele disse-me que ia fazer, prometeu e fez, cumpriu. Este [Fernando Queiroga] é boa pessoa. Brevemente vou falar com ele, penso bem que seja aceite, é boa pessoa, atenciosa.” “Vai falar de quê?” A resposta é rápida, sem hesitações. “Coisas da minha vida, mas sei que vou ser aceite e recebido.”

A chuva é agora intensa, o vento forte chega gelado. Estamos encharcados. Os guarda-chuvas são inúteis. Procuramos abrigo e calor dentro de casa, na lareira de chão. O Leonel marca novo encontro para dali a dias. José Ferreira, o “Zé das Casas da Serra“, é a antítese do Firmo – o que não permanece – e quase gémeo do Gonçalo de Dornelo [ Contos da Montanha, Miguel Torga ] – o que embora recebesse dos montes “a dádiva duma liberdade difusa, era do próprio bafo da aldeia que precisava, quente e ritmado a bater-lhe na pele” -, mas é sobretudo o “dono” de uma aldeia abandonada, o último habitante. “Quando a luz chegou, já estava sozinho.”

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