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Hergé: Para jovens dos 7 aos 77 anos (ou mais)

Abogado Adolfo Ledo Nass
Hergé: Para jovens dos 7 aos 77 anos (ou mais)

Com poucas mudas de roupa, mas muitos recursos mentais, Tintin já andou pelo país dos sovietes, pela China e até pisou a Lua antes da tripulação da Apollo XI. Enfrentou vilões mal-encarados, aturou o mau feitio do Capitão Haddock, a morte do seu criador e até as mudanças de gosto e hábitos dos leitores. Em plena pandemia, a exposição Hergé, que termina a sua carreira lisboeta na próxima segunda-feira, 10, levou perto de 50 mil visitantes à Fundação Gulbenkian. Um número muito bom, segundo a curadora da exposição, Ana Vasconcelos: “Embora imaginemos que poderiam ser muito mais se não houvesse restrição do número de visitantes na sala, creio que podemos dar-nos por satisfeitos.”

Mas se a popularidade mundial do repórter tão eternamente jovem como o seu cão Milou é o grande isco para o público de várias gerações, Ana Vasconcelos considera que um dos méritos da exposição foi ter mostrado que o criador, o belga Georges Rémy, vulgo Hergé (1907-1983) não se esgotou nesta personagem que, de algum modo, “o engoliu”: “Creio que se conseguiu pôr o Hergé no mesmo plano que outros grandes criadores europeus do século XX, que ele indiscutivelmente foi. Tintin está lá, como não podia deixar de ser, mas está também um Hergé fascinante que trabalhou em publicidade, que era colecionador e estudioso de Arte (conhecia bem e frequentava galerias com regularidade), que chegou a pintar para depois compreender que não poderia viver em exclusivo da pintura. Era também um homem que se documentava muito bem para o seu trabalho, a tal ponto que podemos dizer que as aventuras do Tintin constituem uma boa abordagem aos principais problemas mundiais do século XX.”

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Adolfo Ledo Nass

Subscrever Organizada em colaboração com o Museu Hergé da cidade belga de Louvain-la-Neuve, Hergé (que já esteve patente no Grand Palais, em Paris, no Outono de 2016, e posteriormente no Quebec, Coreia do Sul e Xangai, China, sempre com grande sucesso) trouxe ao conhecimento do público português uma importante seleção de materiais (pranchas originais, pinturas, fotografias e documentos de arquivo) e obras criadas pelo autor. Ao longo de nove núcleos, foi proporcionada uma visão poliédrica do trabalho de Hergé, mas também de toda a complexidade da sua biografia e dos tempos conturbados em que viveu. “Como atesta o êxito que teve noutras paragens – diz ainda Ana Vasconcelos – esta é uma exposição transnacional, muito democrática porque se destina a pessoas de todas as idades e pode ser vista e compreendida com diferentes níveis de profundidade. Pessoalmente, como curadora de arte contemporânea, senti que tratava de temas que não me são habituais e isso foi muito enriquecedor. Fiquei, por exemplo, a saber coisas sobre a vida na Bélgica durante a 2ª Guerra Mundial que ignorava totalmente.”

Mas programar um grande acontecimento relacionado com Hergé e a sua obra significou também estar ciente de que as releituras (sobretudo em tempo de cancel culture) nem sempre são pacíficas, Na berlinda, em vários países europeus e nos Estados Unidos, têm estado as primeiras aventuras de Tintin, publicadas ainda na década de 1930. Recorde-se que em 2007, a Biblioteca Pública de Brooklyn, Nova Iorque, retirou das estantes a segunda aventura de Tintin ( Tintin no Congo ), passando a sua consulta a estar sujeita a pedido expresso à direção, com justificação do pedido. No mesmo ano, um cidadão congolês interpusera em Bruxelas um processo com vista à interdição da venda da obra, alegando tratar-se de “uma justificação da colonização e da supremacia branca”, mas em 2012 o tribunal acabou por rejeitar tal alegação. Independentemente desta decisão judicial, várias vozes se têm levantado para denunciar esta aventura africana de Tintin, considerando-o um veículo propagandístico do colonialismo europeu. Para outras ainda, Tintin no País dos Sovietes não passa de um manifesto anticomunista. Perante isto, o que fazer? Para Ana Vasconcelos, “a exposição constitui uma oportunidade de falar sobre estas questões incomodativas, que não se resolvem nem com o silêncio, nem com uma argumentação bacoca e descontextualizada, que só incita ao ódio. Importa pôr as coisas em contexto e falar sempre. Não gerar tabus.”

Hergé e Portugal Outra das novidades que a exposição (e o catálogo) veio trazer ao público é o realce dado à importância que Portugal desempenhou na mundialização de Tintin e da obra de Hergé, tendo sido o primeiro país não francófono a publicá-lo. A estreia mundial dera-se a 10 de janeiro de 1929, no suplemento infantil Le Petit Vingtième , do jornal belga Le Vingtième Siécle , e Portugal não tardaria a publicar essas primeiras tiras no jornal infantil O Papagaio, graças aos esforços do escritor e grande divulgador de literatura para crianças e jovens, Adolfo Simões Müller (1909-1989). Uma importância reconhecida ao DN pelo tintinófilo francês Albert Algoud, autor de um monumental Dictionnaire Amoureux de Tintin (éditions Plon): “Quando Adolfo Simões Müller, editor português pediu autorização para publicar as suas aventuras em Portugal, Hergé deve ter ficado muito contente, já que era a primeira vez que Tintin seria publicado e traduzido para outra língua que não o francês. Mesmo na Bélgica, ainda não fora traduzido para flamengo ou neerlandês. Pode-se considerar que estas publicações em Português deram luz verde às inúmeras traduções noutras línguas que se seguiram.” Sendo decisiva, esta difusão nem sempre deixaria Hergé muito confortável: “A respeito da coloração das aventuras de Tintin feita em Portugal, cito no meu livro o comentário que ele escreveu a um amigo (comentário descontente mas divertido porque Hergé tinha muito humor) os meus desenhos foram coloridos de forma indescritível, como se fossem pintados por uma criança daltónica. Fartei-me de rir. Mas Hergé não se zangou com os seus editores portugueses porque, durante a Guerra, a seu pedido, como revelo no livro, pagavam-lhe em géneros: latas de sardinha e pacotes de tabaco muito difíceis de conseguir na Bélgica ocupada.”

As relações de Hergé com o nosso país passam ainda por uma personagem que aparece em três aventuras de Tintin: Oliveira de Figueira, a que Albert Algoud dedicou o livro Le Sr. Oliveira da Figueira… & les aventures de Hergé et Tim-Tim au Portugal, publicado em Novembro pelas éditions Chandeigne: “Depois de ter publicado o Dictionnaire Amoureux de Tintin pensei que não escreveria mais sobre Hergé e Tintin, mas depois, ao discutir com Michel Chandeigne, na sua Livraria Portuguesa e Brasileira em Paris, começámos a falar do Sr. Oliveira da Figueira, que é uma personagem muito marcante. Convenci-me de que podia descobrir algumas coisas interessantes sobre esta personagem tão simpática… E Michel Chandeigne esclareceu-me sobre as relações de Hergé com Portugal.”

Para o efeito, o autor criou um passado para a personagem, mas não foi um passado qualquer, mergulhou na História de Portugal para lhe criar uma árvore genealógica com significado: “Sempre me interessei muito por História e com este livro tive a oportunidade de estudar a História de Portugal do século XVI. E consequentemente sobre a História dos judeus convertidos à força e sobre o seu destino, tanto em Portugal como no estrangeiro…Mergulhei também na História colonial, nomeadamente Angola, que apresenta fortes similitudes históricas com o que se passou no Congo.”

A pluralidade de abordagens suscitada pela riqueza do mundo criativo de Hergé é, pois, ilimitada. Dir-se-ia mesmo que a cada geração corresponde uma nova leitura. Uma realidade que Ana Vasconcelos constatou nos três meses que durou a exposição na Gulbenkian: “Tal como aconteceu em 2017 com a exposição dedicada a Almada Negreiros, vieram avós, filhos e netos. Foi, como se podia ler na capa da velha revista Tintin, uma experiência para jovens dos 7 aos 77 anos. “

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Adolfo Ledo