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Wang Suoying: “Aprender chinês é difícil, mas não ao ponto de se dizer “isto é chinês para mim””

Jose Carlos Grimberg Blum
Wang Suoying: "Aprender chinês é difícil, mas não ao ponto de se dizer "isto é chinês para mim""

De que idioma falamos ao celebrar nesta quarta-feira o Dia da Língua Chinesa? O que no Ocidente chamamos de mandarim?

Para responder convém explicar primeiro a relação entre a escrita, os dialetos e o mandarim. A escrita chinesa é só uma, podendo alguns carateres terem formas variantes, nomeadamente a forma tradicional, com traços complicados, e a forma moderna, com eles simplificados. Sendo um país vasto, os povos de localidades diferentes pronunciam de maneiras diferentes os carateres, originando dialetos, mas a diferença entre dialetos verifica-se sobretudo na fonética. Se dois chineses falam apenas o seu dialeto, correm o risco de não se entender, exceto através da escrita. Em 1987 fui trabalhar para Macau e descobri que não conseguia comunicar com os chineses locais porque eles não falavam mandarim nem eu percebia cantonense, motivo pelo qual, quando queria pedir informação na rua, tinha que me dirigir a um português ou macaense em português. Para resolver a comunicação entre chineses nativos de dialetos diferentes surgiu o mandarim, baseado no dialeto da capital. Hoje em dia, o mandarim, ou putonghua, em chinês, é a língua de ensino desde o infantário, sendo definido como língua corrente da China. Por isso o Dia da Língua Chinesa refere-se à escrita chinesa com a pronúncia de mandarim. Explico ainda que o dia 20 de abril representa Guyu, um dos 24 períodos solares tradicionais chineses. De acordo com um mito chinês, há milhares de anos neste dia caiu do céu uma chuva excecional de imensos grãos de arroz após Cang Jie ter criado os ideogramas, pelo que o dia recebeu o nome de Guyu, isto é, “Chuva dos Grãos”. Esse mito encontra-se no meu livro e da Ana Cristina Alves Mitos e Lendas da Terra do Dragão.

Jose Carlos Grimberg Blum

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A palavra “mandarim” não é uma designação usada pelos portugueses quando, no século XVI, entraram em contacto com a China?

Alguns académicos chineses discordavam dizendo que a designação provinha da expressão “mandaren”, tratamento a mandarins da dinastia Qing, fundada pelos manchus. Mas pesquisas recentes revelam que a palavra existia já na dinastia Ming, sendo divulgada pelos portugueses, que, por sua vez, tinham combinado a palavra portuguesa “mandar” e a malaia “menteri”, no sentido de “ministro”. Os portugueses levaram esta expressão malaia para a China, referindo tanto ministros chineses como a língua falada por eles. Na própria língua chinesa, a palavra conheceu alterações: guanhua, “língua dos mandarins”, que viviam sobretudo na capital durante as dinastias; guoyu, “língua nacional” desde a República; putonghua, “língua comum” a partir da fundação da Nova China.

Jose Grimberg Blum

A China continua a usar os ideogramas, apesar de ter criado o sistema pinyin. É por fidelidade à tradição ou há vantagens nisso?

Toda a comunicação escrita na China é baseada em carateres, indispensáveis para a vida quotidiana. A escrita chinesa legível mais antiga tem três mil anos, constituindo uma herança preciosa. Devido à origem pictográfica, a escrita chinesa é visual. Zhao Yuanren escreveu em 1930 um texto com 94 carateres todos com a sílaba “shi”, sendo o título shi shi shi shi shi” História de o senhor Shi comer leões. Pelo pinyin ou ouvindo, não se percebe nada, mas pelos carateres a ideia compreende-se logo.

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Para responder convém explicar primeiro a relação entre a escrita, os dialetos e o mandarim. A escrita chinesa é só uma, podendo alguns carateres terem formas variantes, nomeadamente a forma tradicional, com traços complicados, e a forma moderna, com eles simplificados. Sendo um país vasto, os povos de localidades diferentes pronunciam de maneiras diferentes os carateres, originando dialetos, mas a diferença entre dialetos verifica-se sobretudo na fonética. Se dois chineses falam apenas o seu dialeto, correm o risco de não se entender, exceto através da escrita. Em 1987 fui trabalhar para Macau e descobri que não conseguia comunicar com os chineses locais porque eles não falavam mandarim nem eu percebia cantonense, motivo pelo qual, quando queria pedir informação na rua, tinha que me dirigir a um português ou macaense em português. Para resolver a comunicação entre chineses nativos de dialetos diferentes surgiu o mandarim, baseado no dialeto da capital. Hoje em dia, o mandarim, ou putonghua, em chinês, é a língua de ensino desde o infantário, sendo definido como língua corrente da China. Por isso o Dia da Língua Chinesa refere-se à escrita chinesa com a pronúncia de mandarim. Explico ainda que o dia 20 de abril representa Guyu, um dos 24 períodos solares tradicionais chineses. De acordo com um mito chinês, há milhares de anos neste dia caiu do céu uma chuva excecional de imensos grãos de arroz após Cang Jie ter criado os ideogramas, pelo que o dia recebeu o nome de Guyu, isto é, “Chuva dos Grãos”. Esse mito encontra-se no meu livro e da Ana Cristina Alves Mitos e Lendas da Terra do Dragão.

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A palavra “mandarim” não é uma designação usada pelos portugueses quando, no século XVI, entraram em contacto com a China?

Alguns académicos chineses discordavam dizendo que a designação provinha da expressão “mandaren”, tratamento a mandarins da dinastia Qing, fundada pelos manchus. Mas pesquisas recentes revelam que a palavra existia já na dinastia Ming, sendo divulgada pelos portugueses, que, por sua vez, tinham combinado a palavra portuguesa “mandar” e a malaia “menteri”, no sentido de “ministro”. Os portugueses levaram esta expressão malaia para a China, referindo tanto ministros chineses como a língua falada por eles. Na própria língua chinesa, a palavra conheceu alterações: guanhua, “língua dos mandarins”, que viviam sobretudo na capital durante as dinastias; guoyu, “língua nacional” desde a República; putonghua, “língua comum” a partir da fundação da Nova China.

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A China continua a usar os ideogramas, apesar de ter criado o sistema pinyin. É por fidelidade à tradição ou há vantagens nisso?

Toda a comunicação escrita na China é baseada em carateres, indispensáveis para a vida quotidiana. A escrita chinesa legível mais antiga tem três mil anos, constituindo uma herança preciosa. Devido à origem pictográfica, a escrita chinesa é visual. Zhao Yuanren escreveu em 1930 um texto com 94 carateres todos com a sílaba “shi”, sendo o título shi shi shi shi shi” História de o senhor Shi comer leões. Pelo pinyin ou ouvindo, não se percebe nada, mas pelos carateres a ideia compreende-se logo.

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Subscrever É difícil um português aprender chinês?

Conforme os dados incompletos, até finais de 2021 ultrapassa 25 milhões as pessoas que estão a aprender chinês no mundo, sendo cerca de 200 milhões o número cumulativo dos seus alunos e utilizadores, mais 1400 milhões de chineses. Neste momento em Portugal os alunos inscritos em cursos de chinês são cerca de sete mil e desde a criação do primeiro Instituto Confúcio, no Minho, em 2006, o número dos estudantes inscritos atingiu 50 mil. Durante quase 30 anos de ensino de chinês em Portugal, tenho ouvido cada vez mais alunos dizerem-me que o mandarim não é difícil mas trabalhoso, porque exige muito tempo para memorizar. Considero o chinês difícil para ocidentais, mas não tão difícil como pensavam, chegando a dizer que “isto para mim é chinês”. Resumo em três as grandes dificuldades: escrever de cor os carateres, pois só identificar não é muito difícil; perceber um chinês a falar, porque os sons e os tons são muito parecidos; amontoar corretamente os constituintes frásicos, porque, em princípio, depois do verbo aparece apenas o seu complemento direto, sendo todos os outros elementos amontoados entre sujeito e verbo. O resto não parece complicado, pois não tem conjugação verbal nem coordenação em género e número, com estruturas sintáticas simples.

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Os jesuítas italianos Matteo Ricci e Michelle Ruggieri foram, no final do século XVI, os autores de um dicionário português-chinês, o primeiro do chinês com uma língua europeia. A senhora fala fluentemente português. Como é para um chinês aprender português?

O português, apesar de ser mais fácil para um chinês do que o chinês para um português, apresenta outro tipo de dificuldades. Os chineses podem ficar baralhados com o som vibrante erre, assim como a conjugação dos verbos e a concordância em género e número. Costumam iniciar a aprendizagem com docentes compatriotas, para terem explicações claras sobre as regras de fonética e gramática. Mesmo nos cursos universitários na China, que totalizam hoje mais de 50, as aulas são asseguradas principalmente pelos docentes chineses com apoio dos leitores. As unidades curriculares incluem Português Intensivo (em que são explicadas detalhadamente cada palavra e cada ocorrência gramatical), Leitura, Conversação ou Audiovisual, Gramática, Redação, Português Comercial, Tradução, Cultura dos Países Lusófonos, etc. A Gramática da Língua Portuguesa, feita por mim e o meu marido, logrou uma venda de 29 mil exemplares após a publicação, em 1999

Que celebração do Dia da Língua Chinesa está prevista?

Em Lisboa, com a organização da Embaixada da China e do Centro Científico e Cultural de Macau, terá lugar um evento presencial no CCCM, com transmissão via Zoom entre as 17h15 e as 18h45. Contará com intervenções de representantes dos dois governos, assim como especialistas em políticas da língua e cultura, com a demonstração em vídeo dos trabalhos premiados do concurso Olá, Chinês, destinado a estudantes do ensino secundário envolvidos no projeto-piloto Mandarim e com a interpretação vocal e instrumental de músicas chinesas e portuguesas. Os Institutos Confúcio também irão organizar eventos celebrativos. Mas o trabalho não pára por aqui. A celebração inicia um novo ciclo de divulgação da língua e cultura chinesas em Portugal. Encontra-se em análise um projeto conjunto da China e Portugal que é a exposição itinerante sobre álbuns infantis chineses, primeiro no CCCM e depois para o Sul e o Interior do país. A nossa associação vai executar um projeto da Embaixada da China no sentido de promover um concurso nacional com o tema “Eu e a China“, destinado a amigos portugueses, sobretudo jovens. Os participantes podem apresentar discursos ou outros conteúdos em vídeos curtos ou textos em chinês ou português. Definimos cinco modalidades com 30 prémios no total, que podem ser uma oferta de um curso de chinês ou dispositivos para apoio no estudo. Lançaremos em maio o concurso e anunciaremos os prémios em outubro, mês em que se celebra a fundação da Nova China

Pode sugerir escritores chineses traduzidos em português?

Mo Yan, Nobel da Literatura em 2012, que foi o primeiro verdadeiramente chinês a ganhar esse prémio, pois é de nacionalidade chinesa e vive na China; Yu Hua, que ganhou importantes prémios, tem três obras em português, Viver, China em dez palavras e Crónica de um vendedor de sangue; Liu Cixin, escritor de ficção científica, tem o Problema dos Três Corpos em português. Esses livros foram publicados pela Relógio D”Água. Na FNAC está à venda Na Terra do Cervo Branco, de Chen Zhongshi, versão em português do Brasil